quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Trigésima nona semana

Na 39ª semana, nasceu Miguel. 
Não ensaio, portanto.  
Nas próximas duas semanas voltarei a frequentar o grupos de estudos d'O Povo em Pé. 
Dia 16 de dezembro, parece, acontecerá o sétimo ensaio.
O tempo do Miguel é totalmente diferente do meu. O tempo do Miguel é outro. O tempo dele é um tempo que estou aprendendo a ter em mim.

Até breve.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Quarto, quinto e sexto dias

Por partes: 

Quarto dia 
Que treta... 
Vamos lá, o quarto dia de ensaios solitários já foi há mais de duas semanas. Já ficou distante, mas vamos falar sobre ele. 
Cheguei tarde. Sentei no centro da sala de cortinas cor de rosa. Estava eu, mais uma vez, sem o livro.
Isso não pode ser acidental. Como é que o sujeito que decide ensaiar e criar a partir de um livro específico vai até o ensaio sem o livro.
Qualquer que seja a resposta, não busquei nenhuma naquele momento. Ao contrário, achei que o ideal era mesmo cancelar tudo, já que esqueci o livro e tudo é tarde e tudo é vazio.
Com uma calma sem precedentes, falando em voz alta comigo, apanhei novamente o projeto do IVO 60. Reli o trecho O Canto dos cronópios. Passei café e decidi que faria um estudo mais detalhado deste miniconto, por contingência e desejo. Coloquei música. As caixas berraram alto. Não me lembro que música exatamente e nem faz muita diferença, já que fui logo interrompido por batidas na porta do Teatro.
Eram a Maísa e a Tânia (acho que esses eram seus nomes), da SP Escola de Teatro, pra dar uma olhada no espaço. Ótimo motivo pra enrolar mais. Enrolei.
Mal as duas saíram - voltei eu desorganizado para o meio da sala - ouço barulhos na porta. Era, desta vez, Sandra, da mesma SP, com o mesmo objetivo. Conclusão: enrolei mais.
O retorno foi ainda mais desorganizado e não pude concluir mais nada.
Voltei para casa de mãos vazias. Pior, de corpo vazio. Mas, veja você, voltei de ônibus, silencioso sentado no banco solitário na frente do cobrador. E lá, sentado com os fones de ouvido tocando Beatles, fiquei pensando no relógio-alcachofra ou relógio-alcaucil, que pode e deve-se dizer de uma e outra maneira. É sobre ele um dos continhos dos cronópios que naquela mesma semana eu havia lido no encontro de um grupo de estudos sobre o tempo (do qual participo às segundas-feiras, coordenado pelo Povo em Pé).
Pensei sobre o relógio-alcachofra. Pensei sobre o que realmente me atraiu para aquela história boba e intensamente poética. Pensei sobre o peso do tempo na poesia proseante de Cortázar.
Este é o caminho: o peso do tempo e da ordem.


Quinto dia
Com um certo gás, uma certa felicidade, cheguei só um pouquinho atrasado.
Roupa de ensaio, livro, tudo a postos. Música.
Alonguei, aqueci. Caetano Veloso cantou livremente em inglês e português. Especial atenção para It's a Long Way.
Fui ao ponto que me assustara no ônibus da semana anterior: o peso do tempo e da ordem na escrita de Cortázar.
Rápido, revisei os textos que mais transpareceram essa ideia, assim, de sopetão. Esta é a anotação do meu caderno:

"Tristeza do cronópio - seu relógio atrasaRelógios - alcachofraO Canto dos cronópios - no centro da rodaTartarugas e cronópios - BELA EXPLICAÇÃO SOBRE QUEM SÃO ELES.
O meu relógio atrasa!"
Simples, decidi que encontraria, no conto sobre a tristeza, as falas, o texto na boca do personagem, ou melhor, na boca do ator.
Caminhei, caminhei, caminhei. Li o texto duas vezes. Caminhei mais. Meias-voltas do primeiro ensaio e tentativas de falar o texto.
Ideia: filmar isso com o telefone celular. Gravar o som da minha voz e mesmo os meus movimentos.
Liguei a câmera do celular e passei a caminhar e experimentar os textos que encontravam alguma reverberação no meu corpo.
Daí surgiram algumas coisas muito legais como o pânico de perceber o relógio atrasado, o movimento de olhar o relógio, a meditação do cronópio.
Ainda repeti essa experiência algumas vezes.
Foi ótimo, saí de lá feliz, mas não sei se pelo resultado ou pelo simples fato de que realizei algo de verdade.
Meta: próximo ensaio na rua.


Sexto dia
Não houve sexto dia ainda, nem sétimo. Há duas semanas não ensaio.
Estou mais cansado do que deveria e trabalhando muito nos outros trabalhos, fora, claro, a espera pelo Miguel. Escrevo hoje e não ensaio amanhã, mas prometo voltar à ativa na próxima semana.
Mas cabe um pequeno apontamento: durante o ensaio número cinco percebi que a quarta capa do livro traz um trecho do Preâmbulo às instruções para dar corda no relógio. Me dediquei por alguns minutos a esse conto e às instruções propriamente ditas. Na segunda-feira seguinte, no encontro daquele grupo de estudos, por ocasião de uma discussão acerca das medidas do tempo, das maneiras possíveis de medir o tempo e da manipulação dessas medidas, acabei  lendo este mesmo trecho para o grupo.
Não sei como, mas sinto que este é o caminho.

sábado, 24 de setembro de 2011

Terceiro dia

Nada fácil isso aqui...
Dia difícil. Mais difícil ainda escrever. Tenho duvidado da eficácia desse sistema. E de sua necessidade, de sua urgência. Será que é isso mesmo?
Bem, que seja.
O ensaio foi curto, cheguei no horário e não demorei tanto pra começar. 
(É estranho isso do tempo em um ensaio sozinho: tudo é muito rápido, você nunca precisa esperar ninguém fazer nada; evidente que tudo parece que demora menos pra acontecer. No fim de uma hora, tenho a impressão de que se passaram quatro. E tem também, acho, uma certa pressa de sair de lá, daquele lugar solitário....)
Voltei a alongar, como no primeiro dia. A mesma sequência, diga-se, com um intuito quase impensado de fixar um aquecimento para meu processo sozinho. As pernas doem um pouco, as costas também. Ainda resquícios de minha recente crise de sinusite, acho, que me deixa o corpo todo zoado.
A música... Acho que ouvi Jonh Coltrane a maior parte do tempo (destaque para sua versão de Every time we say goodbye, que me atravessou durante uma sequência de rolamentos no aquecimento).
Alonguei e comecei a recuperar as meia-voltas do primeiro dia. Recuperá-las e repeti-las, de maneira que fossem, aos poucos, se transformando para aceitar outros espaços, outros pontos de partida. Ainda quero desenhar essas meia-voltas aqui.
Depois voltei-me ao texto, que desta vez eu trouxe, conforme combinado comigo mesmo.
Li e reli diversos contos da parte final do livro. Anotei uma primeira estrutura do livro (sua divisão explícita), esbocei algumas ideias de relações entre os contos que pudessem revelar outras estruturas.
Parei. Me perguntei seriamente se é mesmo sobre este livro (Histórias de Cronópios e de Famas) que quero começar a trabalhar. Tem tantas coisas na obra do Cortázar que me chamam mais atenção agora do que este livro...
Escolhi, em janeiro deste ano, que se algo na obra do Cortázar me fazia pensar em teatro, era esse livro (fora, talvez, Instruções a Jonh alguma coisa, conto de outro livro sobre, justamente, teatro). Agora já não tenho certeza; a ideia da rua me leva a pensar em textos um pouco mais políticos, um tanto mais realistas talvez. A auto estrada do sul, Todos os fogos do fogo, Casa tomada, A saúde dos doentes e outros tantos... Aquele sobre o outro céu e mesmo o das instruções ao Jonh não sei das quantas.
Dúvida complicada pra quem está no terceiro dia de ensaio.
Seguimos.



segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Segundo dia

Como não podia deixar de acontecer num blog meu, o segundo post está atrasado...
Normal.
Mas vamos ao que importa. A maior lição, a maior conquista deste segundo encontro comigo mesmo está bem clara: é que eu fui.
Parece uma piada sem graça, mas não é. Ter ido ao Teatro IVO 60 na última sexta-feira às 15h (portanto, 1 hora de atraso comigo mesmo) é uma vitória gigante.
Meu corpo estava doído ainda do treino de parkour da segunda-feira, minha cabeça explodia em dor sintomática de uma crise de sinusite que me ataca desde quarta, o dia estava cansativo, havia muita coisa pra fazer em casa, que acabou de ser pintada e precisa de um bocado de trabalho pra ficar arrumada.
E ainda assim, eu fui ao ensaio.
É quase como parar de fumar: um dia de cada vez e algumas metas a médio prazo pra criar um sentido geral de responsabilidade. 
Cheguei e perdi cerca de meia hora deitado no chão, sentindo as dores no corpo. Os pensamentos (que eu tentava fazer passarem pela cabeça sem parar) ficavam me puxando pra estupidez de não ter levado o livro do Cortázar que é a base pra esse trabalho.
Começou aí, acho uma tentativa de organizar e planejar, ainda que minimamente, um ensaio criativo. Voltei-me para minha mochila e busquei o projeto que o IVO 60 recentemente enviou ao Programa Municipal de Fomento ao Teatro. Lá consta, como citação, um conto do livro em questão: O Canto dos Cronópios.
Fiquei quase emocionado quando achei o conto. Bem, ainda não era exatamente um planejamento de ensaio, mas era um começo.
Li o texto, primeiro em silêncio. Li de novo, Li outra vez. Comecei a ler baixinho, mas a voz falhava um pouco. Li mais alto.
Esqueci de mencionar: enquanto eu lia as caixas acústicas mandavam uma sonzeira da Orquestra Típica Fernandez Fierro, ou seja, uns tangos de rasgar. Achei estranho no começo, mas com o tempo o som vindo do bajo fondo se embrenhou nas minhas palavras (ou talvez elas, as palavras, é que tenho adentrado o labirinto do som).
Segui lendo. Repetidas vezes li o pequeno conto em voz alta. Enquanto lia, caminhava pelo espaço, quase sempre em círculos, mas me forçando a variar, pelo menos, o sentido. No começo impostando um pouco a voz, fantasiando uma plateia; depois, mais calmo, acredito que dando mais espaço para o texto, para as palavras, que pra mim mesmo.
Em determinado momento, larguei o papel, texto decorado, no coração.
Parei de falar o texto e continuei me movimentando. Estanquei no meio da sala e pensei que havia acabado por hoje, mas antes de ir tentei recuperar os movimentos de meia-volta e percursos da semana anterior, que eu sei que ainda vou usar isso pra alguma coisa.


Vitória: dois dias.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Prólogo e primeiro dia

Começa aqui o relato pretensioso de pretensiosa jornada rumo ao desconhecido.
Estas páginas virtuais receberão a cada semana, informações, descrições, sensações, percepções, reflexões e intenções de um processinho que acaba de começar. Processinho que não tem nome então o blog foi batizado pelas duas coisas que se mostram, até o momento, os pontos de partida: os contos de Julio Cortázar e um ator. Sobre os contos, foram escolhidos os da parte final do livro Histórias de Cronópios e Famas. Tratam-se das histórias dos cronópios e dos famas. E das esperanças. Sobre o ator, sou eu.
Primeiro dia
Não tem como saber se isso vai dar certo ou não.
Não sei nem por onde começar, então, desde a semana passada tenho pensado em como seria esse primeiro dia.
Começou como começam quase todas as minhas atividades: atrasado. Demorei pra resolver questões em casa ou demorei pra tomar coragem, não sei direito.
Quando cheguei enrolei a mim mesmo por cerca de 15 minutos, arrumando o galão d'água, organizando as ferramentas e (isso era útil mesmo) procurando um cabo pra ligar o iPod no aparelho de som. Parei no meio da sala, cortinas rosa fechadas, olhei pro espaço. O som disparou, no modo aleatório, "Nature Boy", na versão pungente do Miles. Decidi que precisava primeiro saber como estou. Só naquele instante percebi o quanto vai ser necessário me planejar bem daqui pra frente.
Deitei no meio da sala e, em silêncio, durante um tempo de (imagino, porque não contei) mais de uma hora me alonguei e aqueci o corpo. Me alonguei por opção, o que é um disparate pensando que, por conta da flexibilidade das minhas articulações ser próxima da de uma pinça, odeio alongamentos. Usei exercícios que aprendi com as queridas amigas do Coletivo Teatro Dodecafônico e que devem ter alguma ligação com as técnicas do Klaus Vianna. Fiz uso também de uma série de movimentos que aprendi com Xica Lisboa em um treinamento de contato-improvisação há alguns anos, com o IVO. Além disso, me arrisquei em meia dúzia de práticas aprendidos com o Ric do LUME. Aí o bicho começou a pegar e considero que acabou o aquecimento.
O modo aleatório do iPod mandou um Charles Mingus (acho que do disco Mingus Dynasty). A partir de então, os deslocamentos do LUME passaram a configurar dança, quisesse eu ou não. Me deixei levar por isso lembrando da querida Silvia Leblon, que sempre dava esse tipo de instrução em seu treinamento de palhaço. Parei por um instante, meio abobalhado.
Nessa hora, o celular, que estava ligado, tocou. Não consegui atender e era um número desconhecido. Quando eu ia voltando ao centro da sala, toca de novo. Lucas, um amigo. Falei com ele meio rápido. Estranho que, assim que desliguei, pensei que devo ter deixado ligado pra não me sentir tão sozinho. E percebi que passara aquela hora e meia, quase duas, sem falar uma palavra, em silêncio. Anotei mentalmente e tentei, juro, retomar de onde havia parado.
Mas parar o fluxo e retomá-lo se mostrou mais difícil do que eu imaginava.
Parei e respirei fundo, abaixei o volume da música.
Lentamente fui reiniciando os deslocamentos que havia exercitado lá no começo. De certa forma, isso funcionou, levanto-me a um outro tipo de trabalho. Mas parece que perdi alguma coisa que nascera (ou apontara) no momento anterior, onde a dança tomava conta do corpo. Posso dizer que um tipo específico de dança estava germinando ali e, quem sabe, posso retomá-la dia desses.
O novo fluxo me levou a deslocamentos que variavam (e essa foi um opção racional, na cabeça) entre movimentos precisos, desenhados e que colocavam as pernas e o restante do corpo em estado de atenção redobrado e movimentos o mais cotidiano possível. Aos poucos, escolhi três pontos de parada no espaço da sala e, regra espontânea, só podia parar nesses pontos (eram quatro, mas o último, de cócoras no canto, foi eliminado em seguida). Os pontos de parada, por serem próximos às paredes, me obrigavam a dar meia-volta e isso gerou três ações simples, uma meia-volta para cada ponto de parada, que repeti inúmeras vezes e, sem saber qual será ou se haverá utilidade, fixei no corpo e no papel. Esse, acho, é o primeiro "proto-resultado" do meu processinho.
O tempo acabara e percebi isso enquanto anotava na folha as meia-voltas. Guardei as coisas e apaguei as luzes antes de sair.