Começa aqui o relato pretensioso de pretensiosa jornada rumo ao desconhecido.
Estas páginas virtuais receberão a cada semana, informações, descrições, sensações, percepções, reflexões e intenções de um processinho que acaba de começar.
Processinho que não tem nome então o blog foi batizado pelas duas coisas que se mostram, até o momento, os pontos de partida: os contos de Julio Cortázar e um ator.
Sobre os contos, foram escolhidos os da parte final do livro Histórias de Cronópios e Famas. Tratam-se das histórias dos cronópios e dos famas. E das esperanças.
Sobre o ator, sou eu.
Primeiro dia
Não tem como saber se isso vai dar certo ou não.
Não sei nem por onde começar, então, desde a semana passada tenho pensado em como seria esse primeiro dia.
Começou como começam quase todas as minhas atividades: atrasado. Demorei pra resolver questões em casa ou demorei pra tomar coragem, não sei direito.
Quando cheguei enrolei a mim mesmo por cerca de 15 minutos, arrumando o galão d'água, organizando as ferramentas e (isso era útil mesmo) procurando um cabo pra ligar o iPod no aparelho de som. Parei no meio da sala, cortinas rosa fechadas, olhei pro espaço. O som disparou, no modo aleatório, "Nature Boy", na versão pungente do Miles. Decidi que precisava primeiro saber como estou. Só naquele instante percebi o quanto vai ser necessário me planejar bem daqui pra frente.
Deitei no meio da sala e, em silêncio, durante um tempo de (imagino, porque não contei) mais de uma hora me alonguei e aqueci o corpo. Me alonguei por opção, o que é um disparate pensando que, por conta da flexibilidade das minhas articulações ser próxima da de uma pinça, odeio alongamentos. Usei exercícios que aprendi com as queridas amigas do Coletivo Teatro Dodecafônico e que devem ter alguma ligação com as técnicas do Klaus Vianna. Fiz uso também de uma série de movimentos que aprendi com Xica Lisboa em um treinamento de contato-improvisação há alguns anos, com o IVO. Além disso, me arrisquei em meia dúzia de práticas aprendidos com o Ric do LUME. Aí o bicho começou a pegar e considero que acabou o aquecimento.
O modo aleatório do iPod mandou um Charles Mingus (acho que do disco Mingus Dynasty). A partir de então, os deslocamentos do LUME passaram a configurar dança, quisesse eu ou não. Me deixei levar por isso lembrando da querida Silvia Leblon, que sempre dava esse tipo de instrução em seu treinamento de palhaço. Parei por um instante, meio abobalhado.
Nessa hora, o celular, que estava ligado, tocou. Não consegui atender e era um número desconhecido. Quando eu ia voltando ao centro da sala, toca de novo. Lucas, um amigo. Falei com ele meio rápido. Estranho que, assim que desliguei, pensei que devo ter deixado ligado pra não me sentir tão sozinho. E percebi que passara aquela hora e meia, quase duas, sem falar uma palavra, em silêncio. Anotei mentalmente e tentei, juro, retomar de onde havia parado.
Mas parar o fluxo e retomá-lo se mostrou mais difícil do que eu imaginava.
Parei e respirei fundo, abaixei o volume da música.
Lentamente fui reiniciando os deslocamentos que havia exercitado lá no começo. De certa forma, isso funcionou, levanto-me a um outro tipo de trabalho. Mas parece que perdi alguma coisa que nascera (ou apontara) no momento anterior, onde a dança tomava conta do corpo. Posso dizer que um tipo específico de dança estava germinando ali e, quem sabe, posso retomá-la dia desses.
O novo fluxo me levou a deslocamentos que variavam (e essa foi um opção racional, na cabeça) entre movimentos precisos, desenhados e que colocavam as pernas e o restante do corpo em estado de atenção redobrado e movimentos o mais cotidiano possível. Aos poucos, escolhi três pontos de parada no espaço da sala e, regra espontânea, só podia parar nesses pontos (eram quatro, mas o último, de cócoras no canto, foi eliminado em seguida). Os pontos de parada, por serem próximos às paredes, me obrigavam a dar meia-volta e isso gerou três ações simples, uma meia-volta para cada ponto de parada, que repeti inúmeras vezes e, sem saber qual será ou se haverá utilidade, fixei no corpo e no papel. Esse, acho, é o primeiro "proto-resultado" do meu processinho.
O tempo acabara e percebi isso enquanto anotava na folha as meia-voltas. Guardei as coisas e apaguei as luzes antes de sair.