quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Quarto, quinto e sexto dias

Por partes: 

Quarto dia 
Que treta... 
Vamos lá, o quarto dia de ensaios solitários já foi há mais de duas semanas. Já ficou distante, mas vamos falar sobre ele. 
Cheguei tarde. Sentei no centro da sala de cortinas cor de rosa. Estava eu, mais uma vez, sem o livro.
Isso não pode ser acidental. Como é que o sujeito que decide ensaiar e criar a partir de um livro específico vai até o ensaio sem o livro.
Qualquer que seja a resposta, não busquei nenhuma naquele momento. Ao contrário, achei que o ideal era mesmo cancelar tudo, já que esqueci o livro e tudo é tarde e tudo é vazio.
Com uma calma sem precedentes, falando em voz alta comigo, apanhei novamente o projeto do IVO 60. Reli o trecho O Canto dos cronópios. Passei café e decidi que faria um estudo mais detalhado deste miniconto, por contingência e desejo. Coloquei música. As caixas berraram alto. Não me lembro que música exatamente e nem faz muita diferença, já que fui logo interrompido por batidas na porta do Teatro.
Eram a Maísa e a Tânia (acho que esses eram seus nomes), da SP Escola de Teatro, pra dar uma olhada no espaço. Ótimo motivo pra enrolar mais. Enrolei.
Mal as duas saíram - voltei eu desorganizado para o meio da sala - ouço barulhos na porta. Era, desta vez, Sandra, da mesma SP, com o mesmo objetivo. Conclusão: enrolei mais.
O retorno foi ainda mais desorganizado e não pude concluir mais nada.
Voltei para casa de mãos vazias. Pior, de corpo vazio. Mas, veja você, voltei de ônibus, silencioso sentado no banco solitário na frente do cobrador. E lá, sentado com os fones de ouvido tocando Beatles, fiquei pensando no relógio-alcachofra ou relógio-alcaucil, que pode e deve-se dizer de uma e outra maneira. É sobre ele um dos continhos dos cronópios que naquela mesma semana eu havia lido no encontro de um grupo de estudos sobre o tempo (do qual participo às segundas-feiras, coordenado pelo Povo em Pé).
Pensei sobre o relógio-alcachofra. Pensei sobre o que realmente me atraiu para aquela história boba e intensamente poética. Pensei sobre o peso do tempo na poesia proseante de Cortázar.
Este é o caminho: o peso do tempo e da ordem.


Quinto dia
Com um certo gás, uma certa felicidade, cheguei só um pouquinho atrasado.
Roupa de ensaio, livro, tudo a postos. Música.
Alonguei, aqueci. Caetano Veloso cantou livremente em inglês e português. Especial atenção para It's a Long Way.
Fui ao ponto que me assustara no ônibus da semana anterior: o peso do tempo e da ordem na escrita de Cortázar.
Rápido, revisei os textos que mais transpareceram essa ideia, assim, de sopetão. Esta é a anotação do meu caderno:

"Tristeza do cronópio - seu relógio atrasaRelógios - alcachofraO Canto dos cronópios - no centro da rodaTartarugas e cronópios - BELA EXPLICAÇÃO SOBRE QUEM SÃO ELES.
O meu relógio atrasa!"
Simples, decidi que encontraria, no conto sobre a tristeza, as falas, o texto na boca do personagem, ou melhor, na boca do ator.
Caminhei, caminhei, caminhei. Li o texto duas vezes. Caminhei mais. Meias-voltas do primeiro ensaio e tentativas de falar o texto.
Ideia: filmar isso com o telefone celular. Gravar o som da minha voz e mesmo os meus movimentos.
Liguei a câmera do celular e passei a caminhar e experimentar os textos que encontravam alguma reverberação no meu corpo.
Daí surgiram algumas coisas muito legais como o pânico de perceber o relógio atrasado, o movimento de olhar o relógio, a meditação do cronópio.
Ainda repeti essa experiência algumas vezes.
Foi ótimo, saí de lá feliz, mas não sei se pelo resultado ou pelo simples fato de que realizei algo de verdade.
Meta: próximo ensaio na rua.


Sexto dia
Não houve sexto dia ainda, nem sétimo. Há duas semanas não ensaio.
Estou mais cansado do que deveria e trabalhando muito nos outros trabalhos, fora, claro, a espera pelo Miguel. Escrevo hoje e não ensaio amanhã, mas prometo voltar à ativa na próxima semana.
Mas cabe um pequeno apontamento: durante o ensaio número cinco percebi que a quarta capa do livro traz um trecho do Preâmbulo às instruções para dar corda no relógio. Me dediquei por alguns minutos a esse conto e às instruções propriamente ditas. Na segunda-feira seguinte, no encontro daquele grupo de estudos, por ocasião de uma discussão acerca das medidas do tempo, das maneiras possíveis de medir o tempo e da manipulação dessas medidas, acabei  lendo este mesmo trecho para o grupo.
Não sei como, mas sinto que este é o caminho.

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